Prevenir a nova ameaça dos pomares - Sessões sobre Fogo Bacteriano prosseguem no Cadaval

Está a decorrer, até meados de março, no concelho do Cadaval, um ciclo de sessões de esclarecimento sobre Fogo Bacteriano – a nova ameaça dos pomares portugueses. Ainda sem registos locais da doença, a iniciativa visa, no entanto, alertar a população para a sua necessidade de controlo, em prol da fruticultura e da economia da região.

 

Aristides Sécio, presidente da Câmara Municipal do Cadaval, manifestou, durante a primeira sessão – decorrida nas instalações da Associação de Produtores Agrícolas da Sobrena – que o município está preocupado com o problema, tendo em conta que «a fruticultura é o motor económico do concelho». Daí que a autarquia tenha entendido envolver-se, «desde a primeira hora, em conjunto com os técnicos, na dinamização destas ações de esclarecimento, de forma a alertar toda a população», referiu o autarca. «Denunciar que se tem um problema destes na própria exploração é importante para todos», defende o edil, «e o mais rapidamente possível, para que aquele não atinja as proporções que teve noutros países».

  

Trabalhar em conjunto, em prol do setor
Esta iniciativa tem por base o plano estratégico regional para controlo do Fogo Bacteriano (FB). Segundo Delia Fialho, para que a fruticultura continue, é necessário trabalhar em conjunto – organizações, técnicos, produtores, autarquias e população em geral, sustentando tratar-se de «um problema que já está na região, sendo por isso uma questão de tempo até ele chegar ao Cadaval.»
De acordo com a engenheira, estas sessões «servem para esclarecer as pessoas e para as sensibilizar a passar a palavra, porque não queremos que isto se torne uma epidemia nem que afete a economia do concelho».
Para o FB não há produtos eficazes, em termos de tratamento. «Ele mata ramos, mata árvores e mata o pomar», explica a técnica, acrescentando: «é a fileira das peras e das maçãs e, enfim, a economia da região que está em causa, caso a doença se espalhe em grandes proporções.»
Em termos de impacto económico, a produção de pera Rocha no concelho representa 30% da produção nacional. Em termos de impacto social, estima-se que no concelho esta atividade ofereça mais de 3.300 empregos permanentes. Durante os 15 a 20 dias de colheita, este setor disponibiliza mais de 6 mil empregos sazonais diários, injetando, nesse período, acima dos 3 milhões de euros por ano.

 

Formas de transmissão e sintomas
O FB trata-se de uma doença provocada por uma bactéria patogénica denominada “Erwinia Amylovora”, que ataca exclusivamente plantas, nomeadamente o grupo das “Rosáceas”. Por ser um organismo tão pequeno, só se identifica posteriormente, através dos sintomas.
A julgar pela forma de transmissão, trata-se, segundo Delia Fialho, de uma doença muito grave. «Pode dizer-se que é a pior doença das pereiras», salienta. Pode ainda atacar macieiras, marmeleiros, nespereiras e algumas espécies ornamentais. A doença pode, por exemplo, ser transmitida através de uma nespereira ou de uma planta ornamental, como as piricantas, e dessas para outro pomar. Daí que se torne necessário o arranque de determinadas plantas ornamentais que possa haver em pomares ou em jardins, por constituírem um foco da doença. De igual modo, tudo o que apareça no pomar, é necessário eliminar rapidamente, para evitar a contínua reprodução da bactéria.
A especialista esclarece que os frutos de árvores atacadas são completamente sãos, embora dessas árvores normalmente não sobre fruta. «Mas mesmo que a bactéria esteja presente não nos faz mal, o mal que pode fazer é dar cabo dos nossos pomares e da economia da região», sustenta a engenheira.
Quando entra na planta – mediante aberturas ou feridas – a bactéria não causa sintomas de imediato. «Só perante boas temperaturas e humidade é que ela começa a multiplicar-se dentro das plantas. O drama é que o principal sítio por onde entra é pela flor, e nós não podemos matar a flor, senão não teremos peras», explica a técnica.
Ao entrar na flor, a bactéria começa a reproduzir-se dentro da planta e vai descendo. «Se nós deixarmos, ela vai até à raiz, matando tudo. Os frutos ficam “mumificados” (secos e agarrados à árvore); os ramos ficam secos e encurvados, enquanto as folhas ficam secas e igualmente agarradas ao ramo», explica.
Quando chega à folha, o mais comum é o “seco” começar na nervura da folha e ir-se alastrando. Outro dos sintomas é a exsudação – gotículas presentes nos frutos e ramos, geradas pela reprodução das bactérias. «Estas gotas têm milhões de bactérias, e é a partir delas que se dá a dispersão no pomar, e desse para os outros», revela Délia Fialho. O aparecimento de zonas alaranjadas abaixo da epiderme (casca da árvore) é outro dos sintomas da presença da bactéria.

 

A dispersão da bactéria, sendo muito fácil, pode dar-se através da chuva, do vento, dos insetos, das aves, da circulação de pessoas e de máquinas agrícolas ou ainda através do material vegetativo, para plantação de pomares, que esteja contaminado.
Quanto ao ciclo anual da bactéria, ela entra em atividade na primavera, ficando adormecida no inverno e até à primavera seguinte, daí que só a partir da floração, com o cair da pétala, possam verificar-se os primeiros sintomas.
A floração tardia, que surge com temperaturas mais elevadas, é outro fator de risco, o que leva à necessidade de ir eliminando essas flores à medida que surgem, por constituírem «uma porta de entrada da bactéria».
A prevenção assume uma importância ainda maior, se considerarmos que a região Oeste possui as condições ótimas para o desenvolvimento da bactéria, em termos de temperatura e de humidade.

Bactéria identificada há mais de 200 anos nos EUA
A bactéria foi identificada, pela primeira vez, nos Estados Unidos da América, em 1780. Na Europa, terá surgido na Inglaterra, em 1957, tendo-se espalhado depois por todo o continente. Portugal terá sido mesmo dos últimos países onde a doença entrou. Países como a Itália, a Alemanha, a Bélgica ou a Holanda continuam a ter fruticultura, não obstante há muitos anos conviverem com a bactéria. Por contraposição, a nível internacional fica ainda o exemplo de Marrocos, que em apenas dois anos perdeu 60 por cento dos pomares.
Em Portugal, a doença terá sido detetada, pela primeira vez, em 2006, na zona de Castelo Branco, enquanto que em Alcobaça os primeiros sintomas terão aparecido em 2010, ano a partir do qual o FB terá tomado maiores proporções.

Boas práticas para o controlo da doença
Segundo Delia Fialho, o caminho passa por desenvolver um trabalho conjunto de difusão das boas práticas, existindo já legislação específica sobre Fogo Bacteriano. Como defende a técnica, «é preciso cumprir todas as regras para manter a quantidade de bactéria baixa. Ainda que possa haver anos em que ela não se manifeste, não podemos esquecer que ela vai lá estar sempre, desde que entrou na região. Temos de nos consciencializar disso e é preciso aprendermos a viver com ela, para podermos continuar com a fruticultura.»
De entre as boas práticas, a equipa técnica preconiza a realização de fertilizações equilibradas, a atenção redobrada na aquisição de plantas e a monitorização exaustiva dos pomares. A prática de limpeza dos sintomas deve ser correta e cautelosa, sob pena de ter o efeito contrário. Por exemplo, o corte do ramo infetado deve ser feito meio metro abaixo do sintoma. «A bactéria desce com muita rapidez e intensidade na árvore. Se os sintomas estiverem no tronco, já não há corte a fazer, temos de arrancar a árvore e temos de a queimar completamente ou enterrar», realça a engenheira. Também a poda deverá ser feita primeiro nos pomares/zonas limpas e só depois nas zonas infetadas.
Na rotina dos produtores terá também de entrar o corte da floração secundária, a limpeza das alfaias e a desinfeção do material de corte dos sintomas. «Há vários produtos, mas temos recomendado o amónio quaternário, por ser um dos menos corrosivos para as lâminas», nota Delia Fialho.
Quanto a tratamentos, não existe nenhum produto de boa eficácia, no mercado, nem “soluções milagrosas”, sendo a utilização do cobre (e outros indutores de resistência), uma das opções apresentadas para controlo da doença.
O grupo de técnicos revelou que irá continuar a emitir recomendações sobre o que aplicar e em que alturas, ficando disponíveis para esclarecer todas as pessoas interessadas.

Sessões prosseguem até meados de março
A Câmara Municipal do Cadaval está a divulgar, antecipadamente, cada uma das sessões, a realizar pelas dez freguesias do concelho, até meados de março.
Já acolheram a iniciativa as freguesias de Peral, Painho e Pero Moniz, seguindo-se a do Cadaval dia 15 de fevereiro (quarta-feira), pelas 20h, na sede do Adão Lobo Sporting Clube (Adão Lobo, Cadaval).
Este ciclo sobre Fogo Bacteriano constitui uma parceria da Câmara Municipal do Cadaval com APAS, ANP – Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha e organizações de produtores locais.
Colabore na resolução deste problema. Fique atento à divulgação das sessões, participe e esclareça-se!
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